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Bom-senso e bom-gosto / carta ao excelentissimo senhor Antonio Feliciano de Castilho

by Antero de Quental

pt · ~30 min at 250 WPM

Bom-senso e bom-gosto é uma carta aberta que Antero de Quental dirige a António Feliciano de Castilho, em resposta às censuras que este lançara contra a chamada Escola de Coimbra e contra alguns dos seus jovens escritores, entre eles o próprio Antero. Assumindo a sua posição de independência e desambição literária, o autor recusa o silêncio e ergue a voz em nome da verdade e da justiça. Denuncia que o verdadeiro alvo do ataque não é uma opinião estética, mas a ousadia de uma geração que pretende pensar por si, sem pedir licença aos mestres consagrados.

A obra é um dos textos fundadores da Questão Coimbrã, a célebre polémica de 1865 que opôs a velha geração romântica à nova. Para além do confronto pessoal, Antero transforma uma disputa literária numa questão de princípios, de filosofia e de moral, defendendo a liberdade de criação, a probidade intelectual e a rutura com a rotina e a vaidade oficiais. Importa por marcar a viragem da literatura portuguesa rumo à modernidade.

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How it begins

Acabo de ler um escripto [1] de v. ex.ª onde, a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes illustres [2] se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso. Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreoccupação de fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indifferente, que é como que se a nada a reduzissemos. Estas circumstancias pareceriam sufficiente para me imporem um silencio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para fallar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentissima de homem sem pretenções litterarias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé. Como não pretendo logar algum, mesmo infimo, na brilhante phalange {4} das reputações contemporaneas, é por isso que, estando de fóra, posso como ninguem avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso tambem fallar livremente. E não é esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniencias, de precauções, de reticencias—ou, digamos a cousa pelo seu nome, de hypocrisia e falsidade.

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