Contos
Contos, de Fialho de Almeida, reúne narrativas que mergulham nos baixos-fundos da sociedade portuguesa do fim do século XIX. Aberto com uma dedicatória reverente, o livro divide-se em ciclos como "Os Doentios", em que o narrador frequenta tabernas miseráveis junto ao cemitério dos Prazeres. Ali convivem coveiros, cabouqueiros e bêbedos — figuras como o tio Farrusco, esquelético e repugnante, ou a taberneira Lauriana — retratados com um realismo cru que não recua diante do sórdido, da doença e da morte.
A força do livro está no estilo: uma prosa nervosa, plástica e visual, atravessada de ironia cortante e de uma observação minuciosa quase pictórica. Fialho funde naturalismo e impressionismo decadentista, transformando a miséria humana em matéria estética. Importa porque revela um dos maiores estilistas da língua portuguesa, capaz de extrair beleza inquietante da fealdade e de fazer do conto um instrumento de crítica social e de exploração sensorial do mundo.
How it begins
Acabo de relêr toda a sua obra. Quanto no artista e no escriptor, o talento tem de malleavel, de voluntarioso e de grande—a ironia na sua expansão facetada e cortante, o estylo na elastica elegancia nervosa dos seus moldes plasticos, e a observação no seu processo tenaz de analyse e de critica—tudo nos seus livros se encontra, a mãos plenas, com uma opulencia que deslumbra. Não sei negar admiração aos homens do seu tamanho, nem lh’a recusarão com sinceridade e justiça os que, como eu, tiverem passado em revista os seus trinta annos de gloriosa e efflorescente actividade. Peço-lhe que aceite a dedicatoria d’este livro mediocre, que pude elaborar nos ocios de uma vida, cortada de trabalhos e dissabores. Duas cousas me levam a consagrar-lh’o—o intento de amortisar uma divida de gratidão pelo que nos seus livros me foi salutar, e o dever honesto de tirar o chapéo diante do que é superior. PARTE I OS DOENTIOS A Ruiva A taberna do Pescada ficava mesmo em frente ao cemiterio dos Prazeres, e era frequentada pela gente do sitio, especialmente de noite, á hora em que os cabouqueiros e os britadores abandonam os seus trabalhos e entram na cidade, em ruido.
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