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Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos

by Jules Verne

pt · ~250 min at 250 WPM

É notória a energia com que se desenvolveram os instintos militares numa população de armadores, comerciantes e mecânicos. Findada a Guerra de Secessão, os artilheiros do Gun-Club de Baltimore, fundado em torno do culto dos canhões cada vez mais colossais, veem-se ociosos e inquietos. O seu presidente, Barbicane, propõe então um projeto deslumbrante: fundir um canhão gigantesco capaz de lançar um projétil até à Lua. A ideia inflama a América inteira, mobiliza subscrições, cálculos e rivalidades — entre elas a do seu velho adversário, o capitão Nicholl — e culmina quando o aventureiro francês Michel Ardan decide viajar dentro da própria bala.

Verne combina rigor científico, sátira ao entusiasmo industrial americano e humor para imaginar a conquista do espaço muito antes de ela ser possível. A obra celebra a audácia da engenharia e a fé no progresso, mas também ironiza o militarismo que converte instrumentos de morte em sonhos de descoberta. Visionária e divertida, antecipa com surpreendente exatidão a corrida espacial e permanece um marco fundador da ficção científica.

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How it begins

É notoria a energia com que se desenvolveram os instinctos militares por entre aquella população de armadores, de negociantes e de machinistas. Insignificantes mercadores saltaram por cima do balcão e acharam-se de improviso transformados em capitães, em coroneis e até em generaes, sem terem passado pelas escolas de applicação de West-Point [1] ; em curto espaço foram na arte da guerra dignos rivaes dos collegas do velho continente, e, á imitação d'estes, alcançaram, á força de prodigalisar balas, milhões e homens, brilhantes victorias. Mas em que os americanos excederam singularmente os europeus foi na sciencia da balistica; e não porque as armas americanas attingissem mais elevado grau de perfeição, senão porque apresentaram dimensões desusadas, e tiveram por consequencia alcances correspondentes e até então desconhecidos. Pelo que diz respeito a tiros rasantes, immergentes ou em cheio, a fogos de escarpa de enfiada ou de revez, já não têem, inglezes, francezes nem prussianos cousa alguma que aprender; mas os canhões, obuzes e morteiros europeus são apenas pistolas de algibeira, comparados com os formidaveis machinismos bellicos da artilheria americana. Não deve causar espanto o que deixâmos dito. Os yankees, que são os primeiros mechanicos do mundo, nascem engenheiros como qualquer italiano nasce musico, ou qualquer allemão, philosopho transcendental; portanto nada mais natural do que ve-los demonstrar na applicação á sciencia da balistica o audacioso engenho de que são dotados.

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