A cidade do vicio
A cidade do vício, romance de Fialho de Almeida publicado em 1882, abre com um narrador que, sufocado pelo calor e pela hipocrisia de Lisboa, decide partir sozinho numa peregrinação pelos campos da província. Em traje de andarilho, percorre searas douradas, feiras de gado e ermidas rústicas, fugindo do tifo, dos teatros fechados e da falsa confraternização literária da capital. A partir desse périplo, a obra reúne quadros, retratos e episódios que contrastam a corrupção urbana com a aspereza luminosa do mundo rural, fixando tipos sociais e paisagens com um olhar implacável.
Mais do que uma narrativa linear, o livro vale como exercício de estilo e crítica social. Fialho denuncia a podridão moral da cidade — a venalidade, a doença, a vaidade dos meios literários e burocráticos — numa prosa densa, sensorial e violentamente plástica, marco do Naturalismo e do Decadentismo em Portugal. A sua linguagem, carregada de imagens e ironia mordaz, faz dele um dos mais originais prosadores portugueses do século XIX.
How it begins
Insupportavel, em Lisboa—o thermometro subindo sem attender a supplicas, subindo e putrefazendo tudo, os despojos subterraneos e a frescura das mulheres, a carne de venda a retalho e a carne de aluguer, os artigos dos jornaes diarios e os artigos alimenticios. Em Lisboa transpira-se muito, pela pelle e pelos criados. E ás vezes, sob o influxo de uma hora de sol ou publicidade, qualquer pessoa se arrisca a ficar com a roupa alagada, e com a reputação em fanicos. No verão, similhante phenomeno exagera-se com violencias equatoriaes; nem gelados nem discrição, logram attenuar-lhe os impetos—é soffrer ou partir. Eu parti. Não imaginam que simplicidade hollandeza de toilette e que frescura de linhos, expendidas em vestons sem forro e pantalonas sem feitio!... Botões de madreperola do diametro de relogios, altas polainas atando na perna por correias em cruz, o cinturão de coiro com cabaça para agua, chapeu tyrolez e bordão ferrado, tendo a mochila dependurada na ponta. Sobre isto, excellente saude, pouco dinheiro, muita alegria e nenhum peso de consciencia. Magnifico ser novo e saber desprezar os tolos, pois não? N’estas digressões de andarilho só me entristece não levar alguem ao lado.
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