Contos do Norte
Não muito distante de Salinas, à beira-mar, o caboclo Antônio e o filho refugiam-se numa palhoça isolada, fugindo da dor que os marcou: o oceano arrebatou a companheira de Antônio durante um temporal, traindo o pescador que tanto amara o mar. Em torno dessa e de outras histórias, "Contos do Norte" reúne quadros da vida ribeirinha amazônica — o caboclo que vive em sua canoa, navega os rios buliçosos do Pará e despreza a cidade dos brancos, encontrando na água, ao mesmo tempo, sustento, liberdade e fatalidade.
Marques de Carvalho compõe uma homenagem ao povo paraense, exaltando a existência seminômade, a comunhão com a floresta e a resignação diante das inclemências da natureza. Os contos exploram o amor, o luto, a vingança e o fascínio das águas, povoadas pela lenda das iaras. Importam como registro literário do regionalismo amazônico, preservando a paisagem, a fala e a alma de um Norte raramente retratado na literatura brasileira do século XIX.
How it begins
Este livro é, na quasi totalidade, uma homenagem ao povo paraense. O escriptor que traçou os contos seguintes não occulta o pendor do seu espirito pela vida seminomade dos conterraneos, que tão sobriamente vegetam no coração das florestas. Viajar sempre com elles pelos buliçosos rios amazonicos, extendido no paneiro de popa da embarcação indigena, abertas as velas ao sopro galerno do vivificante marajoara, seria a realisação d'um sonho,—bello sonho de retrocesso á existencia primitiva, se quizerem, mas de intensa consolação moral. Quando o caboclo, armado do longo varejão por elle mesmo talhado no matto, impelle a canôa para o leito da correnteza, fazendo-se ao largo, não pensem que leva cuidados no espirito ou maguas no coração: a cidade é para elle um agrupamento complexo de sêres transviados, o antro onde formigam incomprehensiveis falsificações da natureza. Elle afasta-se contente com o cigarro ao canto da bôcca, uma jucunda satisfacção nos recessos da alma. Partindo para o sitio , para a roça, o caboclo é o triumphador das selvas, o zombador dos preconceitos, resignado ás inclemencias dos homens,—que as da natureza são-lhe familiares e já insensiveis talvez. E quando, ao meio do rio, desdobra as velas á viração, inunda-se-lhe o cerebro de uma ineffavel volupia, todo o encanto da liberdade dilue-se no seu espirito, deliciosamente infiltrado. Bastam-lhe os horisontes alcançados com o olhar tranquillo.
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