Bases da ortografia portuguesa
Bases da ortografia portuguesa nasce de uma circular pública assinada por A. R. Gonçalves Viana e G. de Vasconcellos Abreu, em Lisboa, outubro de 1885, para explicar a ortografia adotada na «Enciclopédia de ciência, arte e literatura». A obra parte de princípios gerais — a língua como facto social, a ortografia como sistema que representa a enunciação comum a toda a nação e respeita a filiação histórica — e desce depois aos princípios particulares do português: leis de acentuação, valor histórico dos fonemas, ditongos, silabização, homónimos, sufixos e composição de vocábulos.
Mais do que um tratado técnico, é um manifesto reformista. Os autores combatem a anarquia das «ortografias» individuais de escritores e tipografias e defendem uma grafia uniforme e cientificamente sistemática, digna de se chamar Ortografia Portuguesa, à imagem do que fizeram a Espanha e a Itália. Importa porque lançou as bases da moderna reforma ortográfica, submetendo a língua à crítica pública e ao juízo de um futuro congresso.
How it begins
Para respondermos às perguntas que nos teem sido feitas acêrca da ortografia adoptada pelos editores técnicos da «+Enciclopédia de ciéncia, arte e literatura—Biblioteca de Portugal e Brasil[1]+» temos a honra de dirijir a V. Ex.ª esta circular, e rogamos-lhe que faça tão conhecidos, quanto em seu poder esteja, os fundamentos em que essa ortografia assenta. Os princípios que servem de base à reforma ortográfica iniciada por nós ambos e usada ha dois anos pelo segundo signatário desta circular, em escritos particulares e oficiais, e em artigos publicados em alguns papéis periódicos, são resultado de estudo consciencioso e larga discussão dos iniciadores. São princípios deduzidos ou antes expressão dos factos glotolójicos examinados com rigor; são todos demonstráveis, e de simplicidade tal que os poderá compreender a sã intelijéncia, aínda que para ela sejam estranhos os estudos de glotolojia. Vamos expô-los à apreciação pública desde já, e assim começará a preparar-se a crítica de todos os indivíduos, que, por se prezarem de Portugueses, não queiram que estranjeiros censurem não haver, para a nossa formosíssima lingua, ortografia científica e uniforme a que deva chamar-se +Ortografia Portuguesa+. No futuro Congresso que temos a peito convocar breve, essa crítica será o único juíz a que todos nós os Portugueses havemos de nos sujeitar para adopção de ortografia portuguesa e rejeição absoluta de toda ortografia individual, seja quem for seu autor.
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