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Os Filhos do Padre Anselmo

by António José da Costa Couto Sá de Albergaria

pt · ~495 min at 250 WPM

Os Filhos do Padre Anselmo, romance de Sá d'Albergaria publicado no Porto em 1904, abre numa noite agreste de fim de outono, junto ao jardim da Cordoaria. O jovem Paulo, de dezoito anos, deixa-se conduzir de olhos vendados pelo amigo Jorge até uma quinta murada, para se filiar nos misteriosos «irmãos da Mão-negra», uma sociedade secreta de socorros mútuos que promete riqueza, proteção e até a conquista da mulher amada. A partir deste juramento clandestino, a narrativa desenrola-se como folhetim de intriga, segredos, paixões e crime na cidade portuense.

A obra reflete os gostos do romance popular oitocentista: o fascínio pelas sociedades secretas, a denúncia das prepotências sociais e a tensão entre lealdade, honra e ambição. Sob o melodrama, Sá d'Albergaria interroga a moral, a justiça e o peso das origens, sugerido já no título. Vale como retrato vivo do Porto de então e como testemunho de um género que cativou gerações de leitores portugueses.

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Nota de editor: Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. Rita Farinha (Fev. 2008) SÁ D'ALBERGARIA OS FILHOS DO PADRE ANSELMO ROMANCE PORTO LIVRARIA CHARDRON DE Lello & Irmão, Editores 1904 Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica 178, rua de D. Pedro, 184 OS FILHOS DO PADRE ANSELMO I Os irmãos da mão negra O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze badaladas da meia noite. O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado, recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito. Era em fins do outono. As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima, despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e sussurrante protesto de espoliadas. Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria, encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella noite agreste e frigidissima.

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